Um dia, com sorte, todos nós chegaremos à velhice.

Hoje tem post meu lá no blog Delicinhas de Pera. E ambos os textos, tanto o que eu escrevi lá, quanto o logo abaixo, estão longos, mas válidos. São resultados de um final de semana lendo, assistindo filmes, pensando e escrevendo!

Sem querer parecer uma pessoa estritamente alternativa (que encontro absurdo de sentidos) mas confesso que ando fazendo parte da turma do fundão quando o assunto é escolher um filme para assistir. Ou melhor, da turma da última prateleira. Aquela aonde moram os filmes não tão comerciais. Se bem que acho que até eles estão na moda, já que pelo que notei, andam subindo um pouco seus andares.

Ando assistindo muitos filmes estrangeiros, alemães, suecos, italianos, franceses. Quando era mais nova e consequentemente um tanto menos sabida das coisas boas da vida, se no filme não se falava inglês, eu nem me arriscava a assistir. Como era ingênua! Mas tudo bem, bendito sejam os anos, bendito sejam os novos aprendizados. Hoje eu valorizo a mensagem do filme, seja lá em que língua ela seja falada. Ando até, de uma maneira, rejeitando aquelas capas super coloridas, excessivas em bronzeamentos, atores famosos, photoshops e afins. Não por puro preconceito, porque se a capa de um filme falasse por ele, certamente os estrangeiros sairiam perdendo também, mas porque geralmente essas capas vendem muito mais imagens do que bons conteúdos.

Mas chega de filosofia barata de boteco. Toda essa introdução foi pra falar de um filme que assisti nesse último final de semana e que eu gostei demais, “O exótico Hotel Marigold” (assistam o trailer aqui). Na verdade ele nem se encaixa nessa classificação de filmes mais alternativos dos quais eu falei ali em cima, porque tem uma capa colorida e alguns atores já conhecidos aos nossos olhos. Mas ele se enquadra muito na minha preferência pelos filmes sem grandes produções, peripécias tecnológicas, tapetes vermelhos ou altos investimentos. É um filme que se faz apenas de bons atores e uma boa história. Que apesar de possuir no seu elenco atores famosos, não são aqueles que simplesmente tem o objetivo de levarem o público ao cinema mas que atuam de uma forma sincera e que nos fazem realmente sentirmos a profundidade da história.

Resumidamente, o filme conta a história de sete pessoas, que já passaram dos seus 60 anos (não consigo usar nem a palavra velho, muito menos idoso) e que por diferentes motivos e circunstâncias, vão parar num Hotel na Índia, que tinha uma bela propaganda sobre como terminar bem a sua vida.

Mas quando eles chegam lá, encontram um lugar centenário a ruir, com um gerente jovem, sorridente e sem uma grande capacidade de gestão, mas que tinha a ideia de construir um local aonde se trata bem e respeitosamente, os “idosos ocidentais”, assim como se faz na Índia.

Sinopse do filme: “Um grupo de aposentados britânicos que decidem “terceirizar” a sua aposentadoria para a Índia. Menos cara e, aparentemente, exótica. Atraídos por anúncios do recém-restaurado Hotel Marigold e seduzidos com visões de uma vida de lazer, eles chegam para encontrar no palácio um espelho de suas vidas. Embora o novo ambiente seja menos luxuoso do que se imaginava, eles serão transformados por suas experiências compartilhadas, descobrindo que a vida e o amor pode começar de novo quando você deixar de viver no passado”.

Além das belas imagens, da leveza com que o filme procura tratar uma questão muitas vezes tão triste, fiquei com o questionamento sobre como é chegar na última parte das nossas vidas. Cada personagem trazia consigo uma longa bagagem de vida, um grande acúmulo de incertezas e o reflexo de como o mundo ainda não se prepara de verdade para a chegada da velhice.

Como eu não tenho um contato constante com essa realidade, já que meus dois avós ainda vivos moram longe de mim, quase não paro pra refletir sobre isso. Mas vira e mexe, seja quando eles vem passar um tempo aqui ou quando eu escuto alguma reportagem falando sobre a vida dos idosos, fico pensando sobre a complexidade de tudo isso. Sobre a linha tênue que existe entre o amor que sentimos por entes queridos que já passaram dos 60, 70 anos e a dificuldade de, muitas vezes, entendermos e respeitarmos essa sua condição e suas consequentes limitações. Sobre a decisão de cuidarmos deles, com todas as exigências que isso implica ou de terceirizarmos esse cuidado. Sobre o peso que tem o sentimento de culpa por não querermos cuidar de quem cuidou de nós a vida inteira e a vontade de vivermos a nossa vida delegando essa questão à outras pessoas.

Complicado, não?

Pensando sobre isso no sábado, depois de assistir ao filme, constatei que a velhice é uma condição, assim como uma deficiência. Tudo depende da forma como se escolhe encará-la, seja quem esteja vivendo ela ou quem conviva com essa pessoa. Longe de mim querer dizer que deve ser fácil possuir qualquer uma dessas duas condições. Porque não possuo qualquer deficiência (física ou mental) e acabei de fazer 26 anos. E como mesmo disse a avó do Marco (que tem Alzheimer e hoje se encontra bem doente) uma vez para ele: “Quer saber o que é ficar velho? Chegue lá!”. Mas percebi que o mundo não vem sendo estimulado a se preparar para viver essa fase da melhor maneira possível. Cada vez mais, vem se buscando uma juventude eterna. São remédios novos, cirurgias plásticas, uma busca por um aumento do índice de longevidade. Mas e aí? Como obter qualidade nesse acréscimo de anos em nossas vidas?

As ruas e os estabelecimentos são adaptados corretamente às restrições que a idade traz? Os atendentes e as pessoas que lidam com o público num modo geral, são devidamente treinados a atender os chamados idosos? A respeitar o fato de todos os anos e as experiências de vida que essas pessoas tem e a ter paciência com as dificuldades que às vezes algumas delas possuem? Seja em falar, andar, entender…

E você? Já pensou sobre isso?

Ainda no sábado, pensando sobre tudo isso, concluí que a vida é para os corajosos. E quando eu falo em corajosos, não estou falando dos aventureiros, que escalam paredões de pedras, saltam pendurados apenas por uma corda ou os que estão sempre buscando uma nova modalidade de esportes de risco. Estou falando dos que tem coragem de viver. Porque ser viciado em adrenalina não faz de um homem uma pessoa verdadeiramente corajosa. Toda essa gana de aventura pode muitas vezes ser apenas uma fuga. Estou falando de quem tem coragem de ir em frente, encarando a vida do jeito que ela se apresenta, às vezes caracterizada rugas, cicatrizes, restrições de movimentos. Condições às vezes inimagináveis de permitirem uma sobrevivência, à primeira vista. Mas que fazem dela talvez um pouco mais difícil de viver, mas não impossível. Tudo é uma questão de escolher se adaptar à ela ou não.

Apesar de ter adorado a atuação de todos os atores, sem exceção, minha personagem preferida no filme é a representada pela atriz Judi Dench (que ganhou um Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel da Rainha Elizabeth no filme “Shakespeare Apaixonado”, dirigido pelo mesmo diretor do filme em questão, tendo atuado apenas oito minutos em cena durante todo o filme). Judi vive a viúva Evelyn Greenslade, uma senhora que se vê sozinha e falida com a morte do marido. Assim como acontece com todos os outros personagens que também vão para o Hotel Marigold, a vida de Evelyn sofre grandes mudanças nesse exótico lugar. A cada cena, todos vão mostrando as suas verdadeiras histórias, escondidas atrás de cada ruga dos seus rostos, de cada ano das suas vidas. Judi, ou Evelyn, é de uma elegância invejável. Usa o seu cabelo da maneira como ele realmente nasce e com roupas simples, mostra toda a sua sabedoria adquirida com a maturidade. E é justamente essa maturidade que lhe proporciona um emprego numa empresa de call center, aonde fica responsável em ensinar os atendentes a tratarem os que estão do outro lado da linha, não como meras máquinas, meros clientes mas como pessoas (isso tem a ver com a primeira cena do filme_. Ela também tem um blog, aonde diariamente relata a experiência de estar vivendo na Índia.

Enfim, o filme traz consigo um grande questionamento e uma grande lição. Principalmente para nós jovens, que ainda não temos a real consciência de que não viveremos para sempre e que muitas vezes, reclamamos de coisas bobas, quando as verdadeiras “dificuldades” ainda estão por nos encontrar lá na frente.

Boa semana.

beijo beijo

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