Quem é o seu trio perverso? – continuação da Vasalisa.

Sim, estou super ausente, eu sei. Mas não vou me repetir dizendo que é por conta do casamento, ok?

Mas não me abandonem, juro que ainda tenho muita coisa bacana pra compartilhar com vocês…haha. Como o texto de hoje, com a continuação do conto da Vasalisa e a busca pela nossa intuição de mulher selvagem.

Pra quem nem imagina sobre o que eu estou falando, o primeiro post sobre o assunto esta AQUI e o segundo, AQUI. Também já escrevi outros posts relacionados à isso e eles estão (quase) todos incluídos na categoria aqui ao lado chamada “Minha essência de loba!”.

Já adianto que o texto esta longuíssimo mas foi praticamente impossível tirar qualquer parte. Pra quem esta em clima de final de semana festivo, nem aconselho a leitura. Mas pra quem esta mais afim de uns dias de reflexão, deleite-se. Pode ler um pouco hoje, outro pouco amanhã. Ou ler tudo hoje e amanhã mais uma vez…

Como eu falei no último texto sobre o assunto, no livro da Clarissa, depois do conto, ela enumera 9 tarefas que Vasalisa, ou no caso eu e vocês, precisamos cumprir para alcançarmos o que ela chama de iniciação desse processo de resgate da nossa mulher selvagem, àquela que usa a intuição e consequentemente sabe o que fazer e como agir.

A primeira tarefa era a de “Permitir a morte da mãe boa demais” e sobre ela, eu falei no post “Você é o artífice de sua vida”. A segunda tarefa dada por Clarissa tem como título “Denunciar a natureza sombria” e vem alinhavada com a primeira. Pois só depois que passamos por essa primeira etapa e permitimos, concordamos, em deixar morrer àquela que é boa demais dentro de nós, é que podemos e precisamos identificar o que ou quem nos faz sermos assim, demasiadamente boa, em excesso e consequentemente inadequadas. Precisamos reconhecer quem é o nosso trio perverso. No caso de Vasalisa o trio era a madrastra e sua filhas. Mas nem sempre eles são pessoas. Podem ser sentimentos, valores e afins.

Todos nós temos o nosso trio de megeras. Esse era o da Cinderela.

Esse é o da Cida!

Pra você, quem é o seu trio perverso? O que esta sombreado dentro de você? O que faz você permitir que as pessoas abusem de você? O que te motiva a agir assim?

Pra alguns pode ser o fato de achar que agir dessa forma é o modo de pertencer à sua família. Para outros pode ser a maneira que se encontrou para fugir do que na verdade se quer da vida.  Lá na Terapia das Lobas, nesse momento foi feito um link com o capítulo 8, daquele livro do qual já falei AQUI,  “Co-dependência nunca mais”, que tem como título “Acabe com a vítima”. Lendo sobre essa relação de co-dependência, entendi que quando vivemos a vida de outra pessoa, quando tomamos o fardo de outrem, surge uma relação ambígua de amor e ódio entre nós e esse outro. Porque geralmente tomamos essa carga por amor, por querer ajudar, mas acabamos odiando essa pessoa posteriormente e devolvemos o “favor” que fizemos à ela através de críticas, por exemplo. Lembram o que eu falei sobre os meus trabalhos em grupo?

São nessas nossas vivências da realidade que conseguimos identificar o nosso trio. Identificar o que nos faz inadequadas, o que nos faz sairmos do nosso verdadeiro papel pra viver a vida de outra pessoa. A resposta pra essas perguntas lá de cima são super particulares e essa descoberta é um trabalho exclusivamente solitário. É necessário um distanciamento dos outros na busca de se aproximar de você mesmo.

Adoro a frase do livro que diz que “(…) ser nós mesmas faz com que nos isolemos de muitos outros e, entretanto, ceder aos desejos dos outros faz com que nos isolemos de nós mesmas”.

Depois que descobrimos exatamente quem é o nosso trio perverso, precisamos aprender a nos protegermos deles. Tudo vem em sequência. Primeiro eu me permito sair daquele papel inadequado, depois eu denuncio o que me faz estar sempre ali, então eu os encaro, pra por fim, poder me proteger.

Mas nunca devemos pensar nesse trio como alguma coisa necessariamente ruim. Podemos dizer que eles são um “mal necessário”, já que nos impulsionam a saírmos do nosso lugar de acomodação. Se a madrasta e as enteadas não tivessem aparecido na vida de Vasalisa, ela jamais teria ido em direção à floresta, rumo ao desconhecido. Jamais teria percebido o quanto estava inadequada em sua vida e jamais teria saído da sua zona de conforto.

Quando Vasalisa estava lá na sua casa, vivendo no automático, o que ela fazia diante do seu trio? Sorria, era gentil. Mas Clarissa diz, numa das sub tarefas dessa segunda tarefa, é que precisamos entender, descobrir que ser boazinha, que ser gentil, simpática, não fará a sua vida florir. Que Vasalisa tornou-se uma escrava, mas que isso de nada adiantou. O trio sempre queria mais. Muitas vezes, quando nos encontramos diante do nosso trio perverso, escolhemos agir com delicadeza, sorrindo, achando que assim faremos com que tudo seja diferente. Mas na verdade, agir assim é pura fuga da realidade. Nesse cara a cara com o trio, com as trevas (como muito se fala no livro e lá na terapia com a Soninha), devemos pensar nesses elementos como uma luz, como um caminho que encontramos pra termos a chance de sairmos dali.

Essa falta de atitude acontece muito com o nosso gênero, as mulheres. Durante toda a nossa história, fomos ensinadas, domesticadas, a sermos elegantes, impecáveis. Clarissa diz no livro “Muitas vezes somos gentis ao invés de sermos espertas. Fomos a vida inteira ensinadas a não causarmos problemas, a deixarmos tudo como esta”. Inúmeras vezes, mesmo atoladas em problemas, em questionamentos, simplesmente sorrimos, escondemos tudo dentro de um tubinho preto e saímos cambaleando em cima de um salto alto. “Olha lá, vejam como ela esta bem, elegante”. Quando na verdade estamos um lixo por dentro. Mas vamos nos ajeitando, levando a vida do jeito que dá.

Só que tem uma hora que o vestido rasga, o salto quebra e a “perfeita ordem” escorre junto com o rímel que não era a prova de chuva. Como mesmo diz Clarissa numa outra parte do livro “Quando agimos assim, a vida se encolhe e o preço que pagamos é muito alto”. É preciso parar de sorrir um pouco pra poder perceber o que esta acontecendo à nossa volta.

Quando nos deparamos com tudo isso, cria-se o que a autora chama de “tensão psíquica“. Ela diz ainda “Essa é uma questão que pode provocar muita angústia mas que precisa ser suportada e que mostra claramente a escolha que devemos fazer“. Chegamos numa zona de confronto entre continuar sendo quem sempre fomos e passar a ser quem realmente somos. E aqui é que mora o grande problema, pois não basta perceber, precisamos ter força para suportar o que vemos. Por isso as 9 tarefas do livro. Não existe chegar na segunda, identificar o trio perverso e achar que então já esta tudo bem. Precisamos seguir em frente. Geralmente ficamos emperradas nesse processo de iniciação. Porque por mais que dentro da nossa psique exista um predador, que tem vontade de mandar todo mundo à merda, a cultura na qual nós mulheres vivemos,nos faz querermos mostrar sempre que tudo esta bem.

Aqui é aquele momento de nos isolarmos, de nos recolhermos ao nosso lugar. Lembram que eu escrevi em outro texto, que intuir é farejar os fatos (termo do livro), refletir sobre eles e então agir?Aqui é quando devemos dar o passo para trás, concentrarmo-nos em tudo isso que identificamos, pra podermos dar o passo adiante, mais confiantes.

Mas como eu já disse uma vez, na teoria tudo parece fácil. Assim como Vasalisa no conto, também temos o nosso coro das megeras, dizendo-nos sempre o quanto somos inúteis (nem sempre assim dessa forma explícita), o quanto somos desnecessárias. E esse coro geralmente mora dentro do nosso inconsciente. Quem nunca pensou e disse pra si mesma “Viu? Eu te avisei que isso não ia dar certo!”. Superego faz coisa minha gente. Mas precisamos ser fortes e termos a consciência do nosso verdadeiro lugar, dos nossos verdadeiros valores. Precisamos parar de sermos submissas, de não nos queixarmos da vida. Não quero dizer para nos tornarmos amargas, daquelas que fazem dos outros o seu muro de lamentações. Como diz Clarissa no livro, essa submissão é de um aparente heroísmo, mas na verdade, ela só gera pressão e conflito entre as nossas personas. “Como o conflito entre o excesso de adaptação e a manutenção da identidade (…)”.

Quem esta vivendo esse momento de conflito, esse momento de tensão, aquela hora em que nos vemos numa encruzilhada, já esta no caminho certo, mas é preciso estar pronta para dar os próximos passos. No livro Clarissa relaciona esse momento com o conto de Vasalisa, dizendo que ela (ou nós), precisa acordar dessa sua submissão, precisa ir ao encontro da megera selvagem para levar um bom susto. Eu diria, um bom tapa de realidade.

Não há como se evoluir, crescer, chegar ao seu destino, ficando estagnada na frente da encruzilhada.

“Não existe meio que nos permita ir e ficar ao mesmo tempo”.

Quem fica ali, tentando camuflar os seus verdadeiros desejos, com medo de escolher o seu caminho, encontra-se morto. Clarissa fala que é como se a luz se extinguisse. Acaba-se o fogo (lembram o que faz Vasalisa ir em direção à floresta?). “É uma forma dolorosa de vida latente”.

É como morrer em vida. E quantas moribundas não existem por aí. Pessoas que vão vivendo e vivendo e vivendo. Costurando um buraco no tubinho aqui, remendando um furo ali, colando um salto acolá. Mas estão finas e elegantes!!! Estão na moda, de acordo com as tendências. Olha lá, como esta bela aquela moça! Quando na verdade, ela esta vestida para o seu próprio enterro. Velando a morte da sua verdadeira essência. Enterrada na cova do superego, com a Carminha lá em cima jogando mais e mais terra em cima dela. Sai desse buraco meNINA (perdoem a analogia à novela, só quis dar mais leveza ao papo fúnebre).

Resumindo, levanta do buraco colega! Tira esse tubinho que te aperta, esse salto que te caleja e assuma/reconheça as suas fraquezas. Mas não faça delas mais um punhado de terra que jogam em cima de você. Escutei em algum lugar que o solo dos lugares mais profundos é o mais fértil de todos. Então faça desse buraco, uma válvula que te impulsione pra cima. Escolha na encruzilhada. Pode até sorrir diante do seu coro de megeras, mas sorria confiante de si, como quem já deu o passo pra trás, como quem já sabe o que quer fazer.

Logo eu volto com a terceira tarefa (“Navegar nas trevas”) mas já aviso pra você ainda não ficar confiante demais. A estrada ainda é longa. Ah, mas tem alguma coisa dentro do seu avental, lembram o que é? Então, é ela quem vai te ajudar daqui pra frente!

Bom final de semana.

beijo beijo

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7 respostas em “Quem é o seu trio perverso? – continuação da Vasalisa.

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  7. Oi Ju! Estou lendo seus textos da Vasalisa como vc me indicou. Muito interessante. Me fez lembrar uma situação da minha infância. Qdo íamos na casa de alguém, da minha avó por exemplo, antes de sair do carro meu pai dizia “dê um beijo em todos e sorria” e pior q isso ele ainda dizia na sequência “seja falsa, sorria” e mostrava um largo sorriso. 🙂
    Eu sei q ele não fazia por mal, sua única intenção era me educar, me domesticar para viver bem em sociedade. E assim fui eu. Sempre sorridente mesmo sem vontade de sorrir. Qtas vezes senti dor de cabeça por mostrar os dentes sem parar mesmo sem vontade.
    Só hoje percebo o qto essa orientação foi pesada para uma criança.
    Vivendo e aprendendo.
    Bjos!

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