Sobre o uso das bicicletas como meio de transporte.

Acho que eu não comentei aqui, mas dia desses presenciei uma das cenas mais tristes da minha vida. Vi um homem perder sua vida depois de ter sido atropelado por uma moto. Na hora eu não sabia quem ele era ou o que tinha realmente acontecido. Mas na sequência dos fatos, dei de cara com a sua filha chorando a sua perda, em meio à todo aquele alvoroço comum a acidentes trágicos como esse e descobri que havia presenciado a morte do pai de uma pessoa que eu conhecia, pois sua filha há muitos anos atrás, dançou no mesmo lugar que eu.

Nos dias que se seguiram, aquela vítima de uma junção de fatores que o levaram a estar ali, aos poucos, foi ganhando nome, sobrenome, histórico de vida, ligação com mais pessoas que fazem parte da minha vida e eu comecei a refletir sobre o que aconteceu. O homem que se foi ali, diante de tantas pessoas que lutaram pela sua sobrevivência e de pessoas que torceram pra que tudo desse certo, estava voltando de bicicleta depois do seu último dia de trabalho, rumo ao que ele esperava que fosse uma aposentadoria feliz, acredito.

Já antecipo aqui, que as minhas palavras não terão como objetivo apontar culpados e nem de julgar a atitude de ninguém. Mas essa morte me fez pensar o quanto muitas vezes nos achamos imortais, o quanto muitas vezes, não pensamos que algo de ruim possa nos acontecer a qualquer momento, em uma sexta feira habitual, num lindo dia de sol, no meio do caminho que fizemos a vida inteira, quase que todos os dias.

Não sei ao certo o que aconteceu naquele dia, mas sei que essa discussão sobre o uso das bicicletas na cidade, vem sendo cada vez mais levantada e cada vez mais ganha novos adeptos. Apesar de não andar muito de bicicleta, ainda mais como meio de transporte, procuro sempre respeitar quem o faz, seja por necessidade ou por puro prazer. Mas como uma típica motorista de carro, muitas vezes me vejo enlouquecida entre ônibus, pedestres desatentos, ciclistas e motociclistas. Sem querer entrar no mérito da questão “mobilidade urbana” mas acho que não deveriam procurar apenas alternativas para que todos os carros existentes transitem de uma forma fluente no nosso trânsito. Deveriam pensar mais em melhorar os outros meios de transportes e suas vias, como melhores ônibus e pistas exclusivas para eles ou uma maior acessibilidade para o uso de bicicletas, por exemplo, pra que os motoristas realmente se sintam tentados a deixar os seus carros em casa.

Realmente acho que usar bicicletas ao invés de veículos motorizados, tem um imenso impacto na facilidade de locomoção dentro de uma grande cidade e sempre serei a favor de movimentos que exijam a construção de mais ciclovias. Mas enquanto toda essa mudança não acontece, acho que o uso de bicicletas como meio de transporte, deveria ser mais conscientizado, assim como deveria ser feito com os pedestres. Fico muito enfurecida, por exemplo, quando vejo pedestres, a metros de uma faixa de segurança, se arriscando ao atravessar uma rua, sem muitas vezes nem olhar para os lados. Hoje em dia, parece que só existe lei no trânsito para os grandes veículos. Porque ao que me parece, motos, bicicletas e as pessoas num modo geral, nem se importam com a forma como transitam por aí.

Repito, sou muito a favor do uso das bicicletas, mas pelo o que eu sei, o uso delas não pode ser indiscriminado, pelo simples fato de que elas ajudam a melhorar o trânsito ou porque ainda não possuem uma via própria. Andar de bicicleta à passeio na Beiramar, não é a mesma coisa que andar em cima dela, no meio de uma avenida movimentada. Ciclistas precisam usar equipamentos, precisam atravessar a rua em cima de uma faixa de segurança (e nesse caso, devem descer da bicicleta e atravessar ao lado da mesma), não devem estar usando fones de ouvidos e devem estar usando ao máximo, roupas que facilitem os seus movimentos em cima do meio que escolheram usar. Fico perplexa quando vejo alguém de bicicleta, no meio de uma movimentada avenida, transitando no mesmo sentido dos carros e com fones de ouvido nas orelhas. Como eles vão notar a presença de um carro? Analisando a proporção por tamanho, é mais fácil um ônibus ver uma bicicleta ou um ciclista ver um ônibus, por exemplo?

Aqui em Florianópolis, acontece muito de estarmos dirigindo numa Rodovia Estadual, aonde a velocidade média é de 80km e ao nosso lado estarem diversos ciclistas transitando pelo acostamento. Sim, eu sei que na Europa eles tem total preferência e que como aqui não possuem ciclovias, muitas vezes é o lugar que possuem para andar. Mas quantas vezes eu precisei usar o acostamento ou precisei entrar em alguma rua e fui surpreendida por uma bicicleta passando ao meu lado? Isso acontece muito no Morro da Lagoa aqui, também. A estrutura da pavimentação de lá já é suficientemente precária, mas eu sempre vejo algum ciclista, em meio à toda aquela loucura insana do Morro, de fones de ouvido nas orelhas, sem nem ao menos olhar para os lados ou ter qualquer tipo de retrovisor que possa lhe dar uma ideia do que esta acontecendo ao seu redor.

Sei que a discussão é complexa e que eu provavelmente só esteja vendo as coisas sob o meu ponto de vista. Mas essa linha tênue entre os conflitos de interesses de todas as partes, sempre me faz pensar. No caso que eu relatei acima, pelo que eu soube, a moto vinha em alta velocidade e parece que não teve como evitar a colisão, por conta disso. Mas às vezes, não importa a velocidade em que estamos, se alguém cruza o nosso caminho assim de repente ou fora do lugar seguro para atravessar, o que dá pra se fazer? Eu sempre paro pros pedestres atravessarem na faixa de segurança. SEMPRE. Mas quando encontro alguém, a poucos metros de uma faixa, querendo atravessar, juro que tenho vontade de parar o carro e explicar pra aquela pessoa a besteira que ela esta fazendo pra não dizer, vontade de passar por cima. E quando pedestre, SEMPRE prefiro caminhar um pouco mais e atravessar em cima de uma faixa. Afinal, aquelas linhas brancas e paralelas, não são apenas um enfeite, certo?

Mas porque não se punem os pedestres que atravessam fora da faixa de segurança, se os carros que param em cima delas são multados? Porque é legítimo as motos andarem no meio da rua, se os carros que ultrapassam outros em locais proibidos, o são? Porque ciclistas que andam no meio da cidade, com fones nos ouvidos, não são autuados se os motoristas que falam ao celular, caso sejam pegos, recebem uma autuação?

E viva os movimentos que que existem com o intuito de dar um maior respeito ao ciclista! Que eles alertem as autoridades acerca da necessidade de mais e mais ciclovias nas cidades, que já estão saturadas de tantos carros. Que eles façam com que os motoristas respeitem mais quem escolhe fazer o uso desse meio de transporte, tão ecológico e tão incentivador de melhorias na mobilidade. Mas que eles não se esqueçam, que junto com os direitos, caminham os deveres! Andar de bicicleta na rua, nos dias de hoje, não é você simplesmente subir em cima de uma magrela, sem fazer uma checagem de freios, de pneus, sem usar os equipamentos básicos e achar que esta passeando em meio ao deserto. Se os ciclistas também não tiverem consciência das suas responsabilidade, não são mais ciclovias que vão diminuir os seus riscos.

Só pra complementar. Ainda nesse mês, dei uma olhada na revista da Unimed, que tinha na capa justamente o tema do uso das bicicletas.

E decidi trazer ela pra casa, pra realmente confirmar essa minha ideia de que os ciclistas também devem ser conscientizados sobre o uso correto das bicicletas, como meio de transporte. E realmente, num quadro dentro da reportagem, falou-se dos cuidados que eles devem ter para pedalar com segurança, em meio à convivência com todos os outros meios de transportes.

Mas mesmo assim, eu percebo que faltaram alguns avisos importantes e fundamentais, como não usar fones de ouvido ou procurar andar sempre ao lado oposto do fluxo dos carros.

Enfim, sei que essa discussão ainda é bem recentes mas fico muito triste quando escuto sobre a morte de alguém que estava em cima de uma bicicleta. Porque apesar de não andar muito, tenho uma paixão por elas (tanto que no nosso ensaio de fotos pro casamento, vai ter uma presente) e acho lindo o movimento de pedalar, inspira uma espécie de libertação, sei lá. Mas toda essa magia que pra mim envolve o ato de pedalar, não tem nada a ver com o uso das bicicletas como meio de transporte. Queria deixar muito claro essa diferença. Porque quando elas são inseridas no trânsito, deixam de ter o ar exclusivamente mágico para se tornarem mais um meio de transporte como outro qualquer. Ainda mais diante da fragilidade representada pelo ciclista. Mais do que o respeito justo que se exige dos motoristas diante deles, também deve haver um respeito dele com ele mesmo. Precauções e atitudes que busquem uma maior segurança, são benefícios próprios, que eles devem tomar, por medo de perderem as suas próprias vidas. Assim como funciona com o uso do cinto de segurança. Ele é obrigatório mas a escolha de usar ele, é de cada um. Mas depois não vem reclamar quando a sua ausência lhe causar qualquer problema.

Fica a reflexão. Tudo o que eu escrevi aqui, é meramente minha opinião. Espero que ninguém se ofenda com o meu ponto de vista. Nada no mundo justifica a perda da vida de alguém querido mas eu procurei mostrar outras formas de se manifestar, outra maneira de fazer com que os motoristas respeitem os ciclistas, que é quando nós percebemos que eles mesmos, respeitam as suas condições.

Outro quadro da reportagem da revista da Unimed.

beijo beijo

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3 respostas em “Sobre o uso das bicicletas como meio de transporte.

  1. Ju,como ciclista fui obrigada a fazer um adendo. O ciclista TEM que andar no mesmo sentido dos carros, pois e considerado um veiculo assim como aqueles. O proprio CTB dispoe sobre uso da bcileta. Quanto aos fones, concordo que atrapalham e bastante. Um beijo e bo semana!

  2. Ju infelizmente no nosso país a bicicleta é usada como meio de transporte por muitos pais de família, com um salário mínimo vergonhoso fica complicado ganhar uma faixa de 600, ao mês para se sustentar e ainda pagar por um transporte péssimo e caro, são 5, ou 10, reais por dia para quem ganha salário mínimo é complicado, e a maioria do povo sofre com essa dedigualdade, enquanto muitos roubam e exploram ao invés de cooperar e pagar o que é devido, isso é Brasil, devia ter uma política de conscientização geral, muitos ciclistas desconhecem a forma correta de usar o veículo, ciclovias aqui é zero, e a falta de respeito com eles é notória, porém, claro que há os ciclistas imprudentes, mas na grande maioria são trabalhadores que não tem opção ou a nossa sorte de ter uma condição de vida mais digna, todos nós devemos nos colocar na pele do outro, aí vamos aprender o que é respeito, bjos Ju, espero que o João já esteja bem.

  3. Infelizmente é a falta de estrutura adequada a cada meio de transporte que não seduz as pessoas a mudarem seus hábitos. Motoristas se sentem protegidos dentro da armadura que são seus carros (e em alguns casos por isso mesmo se tornam imprudentes pela falsa idéia de proteção nessa armadura), os motoristas de ônibus precisam cumprir horários e nem sempre prestam o serviço adequado aos usuários (e mais uma vez o tamanho dos seus veículos os tornam perigosamente invasivos), ciclistas se sentem no direito de interferir no fluxo do trânsito e não se preparam, com o mínimo de segurança ou conhecimento de tráfego, pra conviver com máquinas na mesma pista, pedestres são reféns do caos urbano e estão à mercê das condições de tráfego pra chegarem onde precisam – seja de ônibus, carro ou bicicleta.

    Se sinto de segurança e setas funcinando são obrigatórios, por que capacetes e luzes de alerta são “bregas”? Existe um código de trânsito, e também um código de conduta ao ciclista!

    Em São Paulo enidades defensoras dos ciclistas querem propostas dos candidatos na defesa do seu meio de transporte, mas o que eu queria MESMO ouvir é como os candidatos pretendem primeiro fazer funcionar o que já está aí, e depois abrir novos caminhos – ou faixas, vamos nos render ao trocadilho – para que as alternativas possam conviver e atender a cada um na sua necessidade – trabalhar, estudar, VIVER!

    A tentação de mudar de hábitos só será realmente sedutora se trouxer, além de benefícios a saúde e a mobilidade, a segurança e uma margem razoável de que chegaremos vivos ao nosso destino.

    BJO! O a gente agradece sempre um ponto de vista diferente, afinal, conviver é preciso!

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