A mudança.

“E a primeira coisa que ela fez assim que colocou os pés no que seria a sua nova casa, foi escrever no seu diário. Dividiu com ele a sua angústia de ter mudado de cidade, a sua dor por ter se afastado das suas amizades de infância e a saudade que presumia sentir quando lembrava do resto da família que havia ficado para trás.

Como seriam os novos vizinhos? Como seria a nova escola? Faria novos amigos? E os garotos? Será que algum iria substituir aquela pontada que sentia no peito quando encontrava o seu namoradinho, que agora estava há alguns quilômetros de distância? O agora estava cheio de dúvidas, de incertezas. Toda a sua vida, que se resumia em dez anos vividos na mesma cidade, estava envolta em infinitos pontos de interrogação. Só lhe restava mesmo escrever. Transbordar naquele caderno colorido, com cheiro de morango, todos os sentimentos que tomavam conta da sua alma de menina.

O quarto ainda estava vazio, assim como seu coração. Faltava-lhe sua cama, a única coisa que viria do seu antigo quarto. Faltavam-lhe certezas de como seria sua nova vida. Mas não havia o que de fato se lamentar. Pois essa mudança lhe traria o seu pai de volta, já que ele não precisaria mais viajar tanto. Mas mesmo assim, mesmo com esse ganho, ela sentia que algo havia se perdido no caminho. Era como se junto com os armários embutidos, que não puderam ser retirados, houvesse ficado uma parte da sua essência. O que pra ela antes era vida, hoje eram apenas lembranças. Em poucas horas, ela já não se sentia mais a mesma. Talvez essa mudança significasse muito mais do que apenas mudar de cidade. Significava um recomeço.

Então, ela enxugou algumas lágrimas que escorriam pelo seu rosto e sorriu. Escolheu imaginar que de carona com o caminhão, que agora trazia o que restava da casa onde nasceu e cresceu, viriam novas experiências, novos aprendizados. Aquela nova cidade havia de lhe acolher, com todos os seus sonhos de menina, com toda a magia que morava dentro dela.

Enfim, a campainha tocou, retirando a menina, que se encontrava sentada no cômodo vazio de móveis, mas lotado de pensamentos, do mergulho que havia dado dentro de todas as suas lembranças, do passado, que agora havia definitivamente ficado para trás. Devia ser a mudança, aquela que às vezes, literalmente, bate a nossa porta e nos obriga a recomeçar do zero, a se reinventar. Esta aí, pensou ela, a partir de hoje eu posso ser quem eu quiser. Distante do que eu fui até agora, posso escolher ser quem eu quero ser de verdade ou quem eu sempre fui, mas que envolvida numa rotina costumeira, nunca pude demonstrar ser.

Diário fechado, os dois pés no chão e lá se foi a menina, rumo a sua nova caminhada. Feliz e grata por tudo que já viveu, mas pronta e aberta a tudo que estava por vir”.

IMG_1400

Obrigada menina, cheia de sonhos, imaginação e criatividade, por ter me trazido até aqui.

beijo beijo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s