Lívia e a força de poder se reinventar, sempre.

Texto que escrevi um tempo atrás:

Imã de geladeira que minha mãe trouxe do Butão, o chamado, País da Felicidade. E realmente, tudo começo com um sorriso….

“E certo dia, assim, como num súbito, num suspiro barulhento, daqueles que parecem sair da boca de quem submergiu das águas e encontrou o ar, ela se deu conta do que estava acontecendo com ela.

                Eram três da tarde de uma quarta feira comum e Lívia se lembrou de um antigo livro que leu há alguns anos atrás, que dizia que as verdadeiras questões pendentes da nossa vida, surgem assim, no meio de um dia aparentemente normal, quando estamos andando distraídos por aí.

                Como alguém que não consegue movimentar as pernas, a moça de aparência saudável, terno preto e sapatos altos, precisou sentar. Avistou a sua frente um desses bancos de praça e meio que cambaleando, entregou-se a ele. Deve ter ficado ali, estática, olhando pro nada, durante uns quinze minutos. Mas ninguém percebeu, afinal, no centro de uma grande cidade, as pessoas andam pra lá e pra cá preocupadas apenas com as suas vidas e nada mais.

                Lívia deu mais um suspiro e saiu do seu transe. Observou as transeuntes passando sem nem dar importância para o que estava acontecendo com ela. Esticou o braço direito, deu uma olhada para o seu próprio corpo, depois o esquerdo e constatou que pra quem a olhasse de fora, realmente, estava tudo nos conformes. Mas se alguém tivesse o poder de enxergá-la por dentro, notaria que na verdade, nada ia bem.

                Depois de perder alguns minutos imaginando quantas vezes poderia ter cruzado com alguém que também estivesse num breu interno, apesar do sorriso no rosto, lembrou o porquê de ter quase se afogado, mesmo estando a quilômetros de uma piscina. E mais uma vez, aquela sensação de sufocamento e impotência, tomaram-na por inteiro. Como se mover?

                Seu celular começou a tocar dentro da bolsa e engatada no automático, Lívia fez menção de abri-la para atender. Mas tomando consciência do seu estado, pausou sua ação e fingiu que o telefone não era dela. Quem de importante poderia ser para interromper esse momento de reflexão? Momento de reflexão? Ela pousou suas duas mãos em cima dos joelhos e clamou por Deus para tentar entender o porquê de todos aqueles insights terem surgido durante o seu mísero horário de intervalo do trabalho. E mais uma vez, lembrou-se do livro que tinha lido. Não é que o sujeito estava certo. Depois de quase trinta anos “vivendo por viver”, o seu tanque de comodismo havia chegado ao limite e ela já não podia mais esconder de si mesma todas as questões que vinha varrendo para baixo do tapete. Sua mãe havia morrido, ela tinha trocado de emprego, não falava com o seu pai havia anos, estava fumando como nunca, gastando dinheiro como sempre e não conseguia terminar um relacionamento do qual já não fazia parte há muito tempo. Mas ela tinha saúde, era o que sempre pensava para se sentir feliz. Se bem que fumando desse jeito e vivendo de qualquer jeito, até a saúde poderia lhe deixar na mão. E sem ela, Lívia pensou, com que forças iria conseguir mudar sua vida?

                Aquele terno preto, elegante, alinhado e o sapato de saltos finos, que pagaria durante quase um ano inteiro, já não conseguiam mais esconder a tristeza que morava dentro daquela mulher. Só que desde as histórias infantis que escutamos quando criança, aprendemos que o importante é sempre sorrirmos, sermos gentis, culparmos os outros pelas nossas próprias fraquezas, que no final das contas, um príncipe encorpado, montado num lindo cavalo branco, aparece para nos salvar e nos levar para o seu castelo e então, vivermos felizes para sempre.

                Que merda, pensou ela. Que bosta de vida é essa que estou vivendo. Nego o fato de ter perdido a pessoa mais importante da minha vida, finjo que nem tenho pai, trabalho num local onde sou apenas mais um número, divido minha cama com um sujeito que não suporto e procuro acelerar a minha morte fumando um bando de drogas que se escondem atrás de um status inexistente e de um gosto de bala de menta. E o pior de tudo, é me dar conta de que somente eu e mais ninguém pode mudar tudo isso que só me faz uma pessoa infeliz.

                Lívia lembrou da noite passada, quando num jantar com os amigos, foi intitulada a pessoa mais alegre do grupo. Que farsa. Porque vivemos tanto tempo sendo quem não somos de verdade. Porque nos cobramos demonstrar uma coisa, quando na verdade deveríamos ceder aos nossos impulsos e sermos quem somos realmente. Não que Lívia precisasse cair em depressão pelos pontos negativos que possam existir na sua atual situação. Mas que ela os reconhecesse e aprendesse a lidar com eles, sem fingir que eles não existem.

                Então ela sorriu. Um sorriso de alívio, que nasceu lá de dentro dela ao constatar a chance que estava tendo de se reinventar. E lembrando que a sua vida estava uma merda, sorriu mais uma vez. E gargalhou. E gargalhou mais alto. Que se danem as pessoas que passavam e a olhavam sem entender nada. Feliz daquele que consegue rir de si mesmo, pensou ela. Mas um riso consciente, daqueles que descobrem o poder que tem sobre a sua própria pessoa. O poder de se auto dominar, se auto comandar.

                E aos poucos, Lívia foi elencando tudo que fazia com que ela perdesse o sono à noite, quando ninguém estava olhando e ela podia transparecer por fora, o que sentia por dentro. E quanto mais problemas iam aparecendo, mais Lívia sorria. Talvez fosse um riso nervoso, mas Lívia preferia atribuir a ele a condição de força. Uma força interna que surgia dentro dela, a cada coisa boa que ela ia enumerando ao lado das coisas ruins. E no fim das contas, no fim da equação, ela se deu conta de que na verdade, na vida, o que importa mesmo é a forma como escolhemos enxergar as coisas. Perceber que se escolhemos focar no lado ruim de tudo, o enredo final da nossa história vai parecer um filme daqueles melancólicos, tristes. Mas que se decidirmos fazer diferente, ser a mudança que queremos ver, pode até não ser que encontremos o nosso “final feliz para sempre”, mas certamente, teremos vivido verdadeiramente tudo que nos é proporcionado e que não caberão arrependimentos depois.

                Assim, aliviada e agarrada na ideia de que para o que não parece ter remédio, deve-se inventar um e não simplesmente deixar como esta, levantou-se. Ajeitou sua roupa, sorriu mais uma vez e seguiu para a vida. Porque como ela mesma sempre gosta de dizer, o mundo não para pra nos recompormos. Nós é que não devemos parar nunca de buscar aquilo que acreditamos ser o caminho para a nossa felicidade”.

Bom feriado.

beijo beijo

p.s. essa é uma crônica que escrevi aleatoriamente. Lívia é uma personagem de ficção, apesar de parecer com muita gente que conhecemos, quem sabe até, com nós mesmos.

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4 respostas em “Lívia e a força de poder se reinventar, sempre.

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